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Apanhador Só (2011 – Acústico-Sucateiro)

A banda Apanhador Só chega para desvendar os segredos da transmutação. Assim como faz com a sucata que serve de percussão, o quarteto encontra maneiras incomuns para usar estilos e gêneros – reinventados a ponto de eventuais influências se tornarem irreconhecíveis.

Preste atenção em “Balão-de-Vira-Mundo“, que ao invés de seguir de volta ao sertão nordestino de seus antepassados, vai mais ao sul e vira tango. Ou no coro de “Vila do ½ Dia“, que mostra como o barroco Clube da Esquina pode combinar com o frescor da Praia do Cassino.

Conhecida do público, “Maria Augusta” retorna com novos arranjos, mais sofisticados. Uma das faixas do EP Embrulho Pra Levar, de 2006, conquista por sua construção: uma letra-refrão com quadrinha capaz de passar entre gerações (“Se por acaso tu disser que não me quer/Eu vou correndo arranjar outra mulher”).

“Maria Augusta”, aliás, não está sozinha ao propor a sensação de antiga trova popular ou de sabedoria ancestral. Isso é o mais surpreendente: a Apanhador Só coalhou o primeiro álbum com outras tantas reflexões valiosas. Alguns exemplos: “Um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre” (“Um Rei e o Zé“); “Não é o prédio que tá caindo/São as nuvens que tão passando” (“Prédio“); “O nosso amor, uma garrafa de vinho/Virando vinagre devagarinho” (“Peixeiro“).

Cuidado, porém, com o que eles dizem. Essa filosofia de verdade-nas-coisas-simples volta e meia é apenas disfarce para uma visão muito mais irônica e desafiadora do mundo. Veja o caso de “Pouco Importa” e do desfecho de “Um Rei e o Zé”. Ou do discurso sombrio que vem com a brisa litorânea de “Vila do ½ Dia” (“A coisa tá ficando preta/O céu já vai perdendo o azul”). “Peixeiro” alerta: “Fica encucada/Não sabe se eu falo sério ou palhaçada”.

E não é apenas isso que torna o disco da Apanhador Só surpreendente. É verdade que as canções são fruto de longo trabalho de forja e lustre, polidas até atingir aquele ponto de assimilação quase imediata. Mas essas mesmas canções sempre carregam um elemento estranho, algo que parece não se encaixar, e que faz com que Apanhador Só mude a cada audição.

Para conseguir esse resultado, contam ainda as colaborações de fora, como o jovem poeta gaúcho Diego Grando, o compositor Ian Ramil, e Estevão Bertoni, vocalista do Bazar Pamplona. A banda também recorre a uma série de objetos normalmente não usados como percussão – entre eles, furadeira, máquina registradora, pato de borracha e a roda de bicicleta, símbolo da Apanhador Só –, que relevam ouvidos atentos aos sons do mundo. Carina Levitan não mais acompanha a banda nos palcos, mas é a principal responsável pelos cacarecos levados ao estúdio.

No fim, é difícil classificar Apanhador Só, que tanto recorre à memória coletiva, como apresenta saídas experimentais impensadas. Alguns podem argumentar que é música pop, mas é apenas meia resposta. O que esses meninos fazem é música popular com espírito aventureiro.

Apanhador Só é Alexandre Kumpinski (voz e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), Fernão Agra (baixo) e Martin Estevez (bateria).

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julho 22, 2011 at 9:18 pm 1 comentário

Apanhador Só (2010 – Apanhador Só)

“Planejei comigo mesmo: assim que tivesse acesso, ouviria o disco inteiro, numa tacada só, antes de abrir a boca. Não consegui. Não passava da primeira música. Malditos venta a fuça lambe-fogo! Botaram ‘Um Rei e o Zé’ atravancando o trânsito. Com aquele solo de metais, uma continuação do assobio falho do Tom Zé em ‘Brigitte Bardot’. Ouvi trocentas vezes antes de continuar em frente. Minha favorita, logo de cara. Só conhecia de shows e ficou linda no álbum. Apanhador Só não é mais aquela banda que eu conheci há uns quatro anos, com as melhores linhas de baixo do rock nacional. Agora eles têm também timbres maravilhosos de guitarra. E o Kumpinski matando a pau nos vocais. Destacaria o hino ‘Maria Augusta’, agora mais dançante, e ‘Jesus, o Padeiro e o Coveiro’, frenética, em erupção. Já tô rouco de dizer: discaço.”
– Estêvão Bertoni

“Um velho cego certa vez me disse para eu me fiar na solidão. Que ela instrui os sentidos. Que há mais filosofia numa sola de sapato que num livro, que um armário sabe mais histórias que um museu. Então me veio essa de construir um parque de diversões onde a única coisa a tocar fosse Apanhador Só. Quando o parque vai ficar pronto? Talvez no dia de não-sei-eu-quando, pois que a experiência demonstra: tudo que é cheio de nove-horas envolve muito balangandã e dor nas costas. Mas demore o que demorar, eu espero, só para poder colocar lá dentro todos os serezinhos dessa mitologia muito da singular que a Apanhador inventa, essa ciranda de padeiros e teoria da relatividade, café solúvel batido sem açúcar, reis conselheiros, garrafas quebradas e histórias de pescador, como um coral de caipiras num picadeiro lamentando um amor perdido, ao som das trombetas plásticas que vêm de brinde nos sorvetes de maria-mole. É assim que vai ser, e eu já enxergo a fila no portão. Propus sociedade ao velho, mas ele me mandou catar coquinhos. Prefere trabalhar na bilheteria. O primeiro disco da Apanhador Só é o parque de diversões da minha solidão.”
– Diego Grando

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julho 13, 2010 at 2:28 am Deixe um comentário


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