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Gui Amabis (2011 – Memórias Luso-Africanas)

O balanço é do mar. Mas não é barquinho, nem bossa nova; são as caravelas que surgem num deslize de beleza e melancolia. “Memórias Luso Africanas” tem essa cadência desde a concepção e o título. Agrupa um conjunto de canções que se entrelaçam esteticamente como retratos em um álbum de família, num registro delicadamente auto-biográfico. Os parentes estão ali fotografados e enquadrados em diferentes molduras: pais e avós citados em letra e principais influenciadores do conceito de trabalho; mulher-voz principal de duas faixas; filha-inspiração de uma das músicas; irmão-referência no jeito de compor, produzir, samplear e desconstruir até reinventar. Amabis fez seu primeiro disco assim.
Produtor de trilhas sonoras para filmes como “O Senhor das Armas” e “Quincas Berro D’água”, Amabis trouxe essa experiência para o disco: os arranjos sugerem imagens de um filme em super 8 ou de uma projeção de slides, tudo quase sempre em preto e branco. É a voz dele quem canta a primeira faixa, “Dois Inimigos” – canção que introduz a atmosfera e convida o ouvinte a espiar no baú empoeirado de lembranças. “Sempre fui muito ligado às histórias familiares, talvez por ter uma avó materna muito carinhosa, com uma história de vida linda e disposição pra contá-la centenas de vezes aos netos. Com a idade, ela foi perdendo a memória, esqueceu tudo e ficou muda. Aquilo me bateu. Fiz as músicas deste disco buscando a sonoridade e memórias dos meus antepassados – portugueses e africanos”, explica o músico, que ainda assina quase todas as letras e toca guitarra, violão, baixo, teclado e programações.
O disco é solo mas a produção não é solitária, ao contrário: Amabis encontrou a tripulação ideal. Vozes e instrumentos de outros artistas ajudam a compor esse emaranhado. Criolo, mostra-se um cantor de primeira em duas músicas – “Orquídea Ruiva” e “Para Mulatu”, ambas escritas em parceria entre autor e convidado – e só faz crescer a expectativa pelo aguardado disco solo dele; Lucas Santtana canta e assina letra na inspiradíssima “O Deus que Devasta Mas Também Cura”, música de Dengue e Amabis; Céu empresta o timbre único para “Swell” – que faz a nau desviar para um saudável mergulho em mares jamaicanos – e “Doce Demora” – pura sutileza com ecos da música portuguesa –, além de fazer vocais de apoio em outras três; Tiganá interpreta “Imigrantes” com o tom preciso para uma letra sobre o choque entre etnias que gerou o DNA genuinamente mestiço do povo brasileiro; e Tulipa Ruiz, a voz mais festejada de 2010, acrescenta suas cores nas ensolaradas “Sal e Amor” e “Ao Mar”. Há ainda Siba fazendo coro em “Doce Demora” e a voz de Sinhá em poesia na faixa “Orquídea Ruiva”. No time de instrumentistas, mais um monte de craques: os bateristas Curumin e Samuel Fraga, o saxofonista Thiago França, o baixista Marcelo Cabral, o violonista Rodrigo Campos, o guitarrista Régis Damasceno e o percussionista Maurício Alves emprestam ritmos, notas e harmonias como remadores de um mesmo barco que desliza num andamento fluído e contínuo.
Como marinheiro de primeira viagem solo, Amabis surpreende em “Memórias Luso Africanas”: seu navegar é preciso pelas águas perigosas de saudosismo, intimidade e reflexão pessoal. Terra à vista!

Ramiro Zwetsch / Radiola Urbana / Março-2011

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maio 25, 2011 at 10:44 am 1 comentário


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