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Ortinho (2010 – Héroi Trancado)

Cuidado: este álbum contém hits chicletosos e canções de romantismo rasgado

Este é um álbum de rock’n’roll. Não, pera lá. É um álbum de pop romântico. Também não é só isso… Digamos, então, que seja um álbum de jovem guarda. Só que um álbum de jovem guarda adulta. Um disco da Jovem Guarda de Caruaru, em plenos anos 2010. Difícil de entender? Claro: estamos falando de Ortinho, fiel seguidor do lema do também pernambucano Chacrinha: “Eu vim pra confundir, não pra explicar”.

Desde que surgiu, no início dos 90, liderando a lendária Querosene Jacaré, Wharton Gonçalves Filho, dito Ortinho, demonstrou-se nota dissonante no cenário do rock pop nacional. Se sua banda recuperava as texturas de psicodelias setentistas como Ave Sangria ou do early Alceu Valença, as idéias de Ortinho integravam a primeira hora do manguebeat – é dele, por exemplo, o clássico “Sangue de bairro”, gravada por Chico Science & Nação Zumbi. Nessa época, misturava ao rock lisérgico o coco, o maracatu, a ciranda e o samba, diluindo as fronteiras desses gêneros com voz rascante e percussiva, em letras cheias de jogos sonoros e nonsense que o colocaram como um dos melhores cantores e compositores de sua geração.

Ocorre que, com este O Herói Trancado, Ortinho afinal desoptou pela confusão. Trocou as dissonâncias pelo pop simples, largou a metralhadora giratória por um tiro certeiro: o rock clássico. O resultado é seu álbum mais coeso, mais maduro, mais exato – e mais do que nunca, pop até a medula. Em seus outros álbuns Ortinho lançou sonoridades e idéias que o tornaram um artista cult (meio sobrevoado por certa aura maldita); este disco, porém, este é pra tocar no rádio.

Se a jovem guarda sessentista conspira a favor de canções como a chicletosa “Pense duas vezes antes de esquecer” (parceria com Arnaldo Antunes e Marcelo Jeneci), o rock brasileiro dos anos 80 comparece depurado em “O cara do outro lado”. A explicação é que, além da sombra de Antunes, parceiro em várias canções (cuja dobradinha Ortinho devolveu em algumas faixas do recente álbum de Arnaldo, Iê Iê Iê), também se ouve um timbre inconfundível daqueles tempos: o virtuosismo canhoto de Edgard Scandurra.

Em “Saudades do mundo” e “Modelo vivo”, Ortinho mostra o outro lado da ponte, agregando à sonoridade robertocarliana a voz suingante de Jorge Du Peixe, a metaleira puxada pelo genial saxofonista Spok, os teclados de Chiquinho (Mombojó) e o piano prodígio de Victor Araújo. Só nesse time de allstars de três gerações se percebe a esperteza de Ortinho como catalisador de talentos – e se entende o álbum também como um recorte muito original do rock brasileiro de todas as épocas.

Com “Moldura”, observa-se que o conteúdo social das obras anteriores deu lugar a um romantismo desesperançado, meio dark, mas não sem doses de humor e leveza (combinação repetida na largada “Retrovisores”). A canção é temperada, como o resto do disco, pela guitarra sutil de Yuri Queiroga, sobrinho de Lula Queiroga, que auxilia Ortinho na produção do disco. A faixa seguinte, canção-título, ganha participação de outro grande guitarrista: Luiz Chagas, que formou na Isca de Polícia de Itamar Assumpção. Pop pra dançar, clássica como aquelas canções que você sente que já tinha escutado em algum lugar, traz a melhor letra do disco, original na mistura de dor e humor: “Fiquei trancado do lado de fora/ Deixando você livre para eu ir embora/ E agora vou aproveitar a minha vida/ Preso pelo mundo afora/ Não tô a fim de receber visitas/ Estou me sentindo livre feito um turista/ Tem muita gente que divide esse mundo comigo/ Alguns até são meus amigos/ Espero com sinceridade/ Que estejas bem/ Que tenhas ocupado/ Meu lugar com outro alguém/ Que sua casa esteja alegre colorida/ Fui condenado a viver sem você o resto de minha vida”

A grunge barra-limpa “Você não sabe dessa missa um terço”, faixa-título de um álbum de Querosene Jacaré, ressurge leve e básica – e aqui louve-se o feijão-com-arroz bem temperado da dupla Vicente Machado (Mombojó) e Dengue (Nação Zumbí), que espalha por quase todo o disco uma eficiência quase transparente, limpa como as melhores cozinhas. Bom lembrar também que o álbum tem a mixagem segura de Yuri Calil, responsável pelos melhores momentos do Cidadão Instigado.

“Sonhar de novo” e “Café com leite de rosas” são mais dois exemplos do novo romantismo tchaptchura de Ortinho (a segunda trazendo, além do wah-wah de Scandurra, o sax barítono de Marcelo Monteiro), um retorno às letras diretas cujo recado é o seguinte: rock bom é sobretudo sobre sexo.

Mas, como com Ortinho nunca se sabe exatamente o que vai acontecer, o álbum se encerra com a fofa “Já fui rei”, uma semiciranda cujo mantra entoado por várias crianças sinaliza, paradoxalmente, a segurança e a maturidade deste artista surgido há 40 anos da lama febril da cidade de Caruaru. Liberdade para o Herói Trancado!

Ronaldo Bressane

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dezembro 27, 2010 at 2:16 pm 1 comentário

Ortinho (2006 – Somos)

Mais antiparnasiano do que nunca, e mais polido do que jamais, o cantor e dublê de metralhadora giratória afinal foca o alvo em Somos, seu segundo álbum solo. Sempre áspero e intratável como o cacto do poema de Manuel Bandeira, dessa vez o caruaruense deu uma enquadrada na composição – o que não quer dizer que amansou o som e sim que o direcionou para canções mais exatas. Não deixe de conferir!

1. Cirandagem (3:47)
2. A Terra Tremeu (4:01)
3. Solto no Tempo (3:29)
4. Muvuca (3:51)
5. Côco de Plástico (3:19)
6. Pano da Alma (3:03)
7. Avenida Norte (3:49)
8. As Flores (2:43)
9. Desabafa (3:53)
10. Ciranda Crônica (4:46)
11. Não Me Ame (3:48)

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maio 30, 2009 at 2:39 am Deixe um comentário

Ortinho (2002 – Ilha do Destino)

Em seu primeiro CD solo, o cantor pernambucano faz contundente crítica social – sem perder a criatividade, a poesia, o humor e o ritmo.

Sumido de Pernambuco, diziam que ele tinha abandonado a música. Desiludido, lendejavam que teria retomado sua veia de artista plástico e rumado pras Oropas. Correu boato de que o cantor havia virado locutor de rádio, apresentando programa de culinária agrestina. Já os maldosos sussurravam que, enfiado no fiado, o pernambucano teria arrumado um trampo de promoter no circuito do forró universitário. Besteirada.

Escondido pelas lendas que ele mesmo criava, Ortinho – nascido Wharton Coelho, em Caruaru, há 33 anos – encerrou sua participação na banda Querosene Jacaré, estava era inventando. Na miúda, concebia sua obra magna: Ilha do Destino. Seu primeiro CD solo nasceu graças a um trabalho incansável de depuração estilística – e o resultado é um som único. Nada fácil, para quem mixa na mesma canção maracatu e rock, rap e repente, ciranda e funk.

1. Alto Zé do Nada (4:08)
2. Cego da Guia (3:49)
3. Ciranda de Lia (3:50)
4. Faquir (O Romance de Paulo Victor) (4:11)
5. Mulambo (3:54)
6. Na Beira da Praia (4:27)
7. O Engano do Humano (3:45)
8. O Estalo (3:30)
9. O Mar (4:09)
10. Procurando Dumdum (4:28)
11. Sangue de Bairro (1:57)
12. Viver Para Crer (Vigir) (3:39)

Myspace de Ortinho

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maio 11, 2009 at 1:35 pm Deixe um comentário


DNA – DISCOTECA NACIONAL

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