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Rogê (2008 – Brasil em Brasa)

Mais um delicioso registro do nosso Rogê.

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agosto 13, 2010 at 1:41 pm 1 comentário

Rogê (2010 – Fala geral)

O SUINGUE SEM ÁLIBI DE ROGÊ

O título deste terceiro disco solo de Rogê já nos oferece a abertura necessária para entendermos o que é a sua música. Fala geral designa, num primeiro plano, sua vontade de transitar por um amplo território, pelo espaço geral que é o da música brasileira, notadamente o samba, mas não apenas. É assim que Rogê vai da bossa nova (“Fala Brasil”) ao samba de exaltação (“Mapa da Lapa”), do sambalanço (“A nega e o malandro” e “Minha princesa”) ao samba reflexivo (“Amor à favela”). E ainda vai além – ou aquém – passando por jongo (“Meu bem volta logo”), ponto de terreiro (“Tempo virou”), um insuspeitado transafoxé (“São Geraldo”) e o não tão próximo culturalmente reggae (“Mãe natureza”, “O guerreiro segue”), embora a origem africana seja a mesma. Por todos esses territórios rítmicos Rogê vai passando e deixando que falem por ele, através dele.

Essa fala  se traduz musicalmente por uma sonoridade impecável, seja quando elegante (como atestam as presenças de Jacques Morelembaum, Wilson das Neves e Daniel Jobim), seja quando irresistivelmente suingada. Sua base são as levadas quase mântricas de Tiago Silva na bateria, o baixo de Matheus, os craques da percussão Nene Brown, Pretinho da Serrinha e Marcelinho Moreira, mais os metais arranjados por Marlon Sette. No meio disso, o violão de Rogê faz o meio-campo e distribui os passes. Cozinha e metais são aqui a alma do negócio. Rogê sabe, e a certa altura confessa: “metal do meu coração!”.

Atualmente se pode notar em muitos compositores e cantores uma operação vazia, que consiste em querer parecer contemporâneo por meio da incorporação muitas vezes gratuita de sonzinhos eletrônicos, aparelhos de última geração, computadores no palco etc. É o contemporâneo convertido em signo e transformado em álibi. Por outro lado, diametralmente oposto, jovens de classe média tocam “samba de raiz”, muitas vezes transformando também essa suposta pureza do passado num valor. Chamo de álibi um caso e outro quando a arte recorre a algo exterior a si própria para fundar seu valor. Pois bem, no disco de Rogê não se vai encontrar esse expediente. O primeiro som que ouvimos é a contagem de Wilson das Neves, baluarte do samba. Mas das Neves não figura aqui representando coisa alguma; ele não vira signo (pelo menos não primordialmente), não é outra coisa senão a levada magistral que é sua marca registrada.

Em outras palavras, a música de Rogê é sem álibi. O suingue é que é a prova dos nove. Daí ele passear sem assombro da bossa nova ao gênero desprestigiado do sambalanço, que ele realiza de forma contagiante, “deliciante”, como talvez dissesse seu mestre maior, Jorge Benjor. Alguns dos melhores momentos do disco estão aí, nas canções “A nega e o malandro” e “Minha princesa”. É só tocar pra começar o baile. Quem vem assistindo aos shows de Rogê sabe do que estou falando. E aqui devo ao menos mencionar dois parceiros importantes de Rogê: Arlindo Cruz, outro de seus mestres, e Gabriel Moura, esse último seu contemporâneo, mas não menos seu mestre. Note-se que Rogê, parceiro de Gabriel em muitos sambas, elabora nesse disco uma sonoridade que não se confunde com a do amigo e colaborador.

Retorno ao título do disco. Já comentei o significado, nele, da palavra “geral”, mas é a outra palavra do título que revela o essencial. A fala remete ao traço mais definidor das canções de Rogê: são canções da realidade, do concreto, da vida candente do cotidiano. Ele, por isso mesmo, talvez preferisse dizer “da chapa quente”, porque as gírias são palavras que pertencem a esse mundo da fala. Sabe-se que “Lingua geral” designava a lingua franca, de uso comum, entre as diferentes tribos indígenas do Brasil colonial. Mas a área de Rogê não é a língua, essa entidade abstrata, depurada, e sim a fala, esse organismo vivo, concreto e em constante transformação pelo povo.

Desse princípio decorrem muitos traços da música de Rogê. As letras que ele canta são diretas, as palavras são coloquiais, há muitas gírias. A sintaxe é também sempre direta (compare-se, a propósito: os letristas-escritores tendem a usar uma sintaxe mais indireta, frases subordinadas, pois pertencem ao mundo da língua, mais que da fala). Os verbos e os substantivos concretos são os alicerces das letras. Estamos no plano da ação e da horizontalidade absoluta. Isso é confirmado ainda pelas referências a lugares: “Fala Brasil” é um inventário deles, e “Mapa da Lapa” idem, em escala menor. Mesmo quando Rogê, com o parceiro Arlindo Cruz, visita a linhagem do samba reflexivo, numa homenagem a Cartola (“Amor à favela”), essa força do concreto se impõe: Cartola era o sambista do tempo, essa categoria abstrata por definição, enquanto Rogê e Arlindo, para falar do tempo, do presente, não abrem mão do concreto, de falar dos barracos, dos donos do morro, da mocidade perdida.

Essa vocação para a realidade tem sua canção-manifesto no reggae “O guerreiro segue”. Reggae é um gênero com forte tendência à ingenuidade, musical, poética e sobretudo ideológica. Mas, aqui, surpresa: a melodia repetitiva, perseverante, se traduz isomorficamente na letra que afirma uma direção ética que prima pela perseverança, pela insistência. É papo reto, água mole em pedra dura: “Se tá russo/ Se tá brabo/ Tá difícil/ Complicado/ Quero mais uma vez/ Vou tentar de novo até conseguir”. Se toda arte revela necessariamente um princípio ético, Rogê não deixa dúvidas quanto ao seu: justamente, não há em suas canções grandes dúvidas, angústias, reflexões. Não há psicologia: é como a nega do samba (“A nega e o malandro”), que pra se vingar do malandro “Endoidou/ Foi pro baile e dançou/ Rebolou até não poder mais”.

Nascido e criado na zona sul do Rio de Janeiro, Rogê já foi a encarnação perfeita da jeunesse dorée carioca. Bonito e carismático, poderia ter deixado estagnar o seu talento numa linguagem precária e se deixado aprisionar no mundo das celebridades. Ao invés disso, ampliou sua geografia urbana, estética e existencial, escolheu o samba e os sambistas como quem escolhe uma cidade para morar. O suingue que corre na veia de cada canção desse disco comprova a verdade dessa escolha.

Francisco Bosco

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julho 7, 2010 at 9:36 am 1 comentário


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